Hoje, a maior parte das identidades dentro das empresas não é humana. Para cada pessoa com login na empresa, existem em média 109 identidades de máquina: contas de serviço, tokens, certificados, segredos, identidades de carga de trabalho e agentes de IA. Dentro dessa proporção, 79 são identidades de agentes de IA. Esse dado vem de uma pesquisa com 2.930 tomadores de decisão de segurança em 20 países, incluindo o Brasil.
Agentes de IA e identidades de máquina: como controlar o acesso depois do login
A pesquisa aponta uma proporção de 109 para 1
Essa proporção, na prática, indica que o número de identidades deixou de acompanhar o número de funcionários, ou seja, cada novo aplicativo, fluxo de trabalho ou processo com IA abre novos caminhos de acesso. Além disso, os agentes se comportam de outro jeito: eles não param para conferir o acesso que receberam e agem na velocidade da máquina.
Esses efeitos aparecem nos incidentes. Nos últimos 12 meses, 90% das organizações tiveram ao menos uma violação bem-sucedida relacionada à identidade, e 83% tiveram pelo menos duas.
Por que o modelo de identidade privilegiada ainda é humano
A pesquisa pediu que cada organização escolhesse a frase que melhor descrevesse a sua definição de identidade privilegiada, e só 15% delas escolheram “qualquer identidade de máquina com acesso a dados confidenciais”. Dentre as opções, a mais escolhida limita o conceito a administradores de TI com o nível mais alto de acesso.
Com esse recorte, as identidades que fazem a maior parte do trabalho ficam fora do inventário de privilégio, e, para manter os serviços no ar, muitas organizações deixam permissões amplas nas máquinas. Para compensar, confiam nos humanos que as supervisionam.
O NIST já apontava o risco: um agente de software pode ter uma exigência de autenticação mais baixa que a de um humano, como uma chave de API no lugar de MFA. Quem obtém essa credencial pode se passar pelo agente.
Criação, herança e revogação: o ciclo de vida que fica para depois
A maioria das organizações sabe dizer por que um agente foi criado, mas bem menos conseguem dizer o que ele acessa, como esse acesso é limitado, como é revogado quando as condições mudam e quem pode herdá-lo. Menos da metade das organizações aplica monitoramento comportamental e revogação de credenciais ao longo do ciclo de vida dos agentes.
Os entrevistados dão exemplos do padrão que se repete nas organizações: as credenciais continuam ativas anos depois do fim de um projeto, e as permissões elevadas de um colaborador não mudam quando a função dele muda. Os acessos de empresas “irmãs” continuam em sistemas legados, abrindo brechas que ninguém documentou, e os tokens OAuth também continuam válidos depois que a finalidade que justificou sua criação acabou.
Todos esses pontos abrem brechas para as empresas, e SSO e MFA não bastam depois do login.
SSO e MFA são necessários e protegem a entrada no sistema. Depois que um usuário, token, conector ou agente está dentro, a pergunta passa a ser: o que essa identidade consegue alcançar, aprovar ou deixar para trás?
Hoje, 56% das organizações dizem não conseguir aplicar menor privilégio contínuo a contas de serviço em nuvem, SaaS e ambientes locais.
O NIST SP 800-207, referência de arquitetura zero trust, descreve o caminho. O acesso é concedido por sessão, com o menor privilégio para a tarefa. A autorização é refeita durante a sessão quando um novo recurso é pedido ou quando surge atividade anômala. Para agentes, o OWASP Top 10 for LLM Applications recomenda que a autorização fique nos sistemas que o agente aciona, e não na decisão do modelo.
Just-in-time e zero standing privilege para máquinas e agentes
Em média, só 39% do acesso privilegiado é gerenciado por just-in-time (JIT) ou zero standing privilege (ZSP), modelos em que nenhuma identidade fica com privilégio guardado à espera de uso: o acesso é liberado quando a tarefa pede e retirado quando ela termina. A maioria das organizações ainda depende de acesso permanente.
No JIT, o privilégio é concedido para a tarefa e revogado no fim da sessão. No ZSP, o privilégio permanente é eliminado. Para uma conta de serviço, isso significa acesso temporário e rotação automática de credenciais. Para um agente, significa acesso só durante uma tarefa específica, no contexto do usuário em nome de quem ele age e com o escopo mínimo.
Detecção e resposta a ameaças de identidade (ITDR): sinais e ações
Implementar ITDR é a prioridade mais citada para os programas de segurança de identidade nos próximos 12 meses. O motivo é o tempo. Os entrevistados estimam que a fragmentação de ferramentas acrescenta, em média, 12 horas a cada incidente de identidade. As intrusões mais rápidas chegam à exfiltração em 72 minutos.
Sinais que pedem atenção:
- volume de acesso acima do padrão daquela identidade;
- acesso fora do horário habitual ou a partir de um local não reconhecido;
- token ou credencial em uso depois que a finalidade acabou;
- agente agindo fora da intenção para a qual foi criado.
Na resposta, as ações básicas ainda dominam: 51% preveem redefinição de senha ou rotação de credenciais, e 36% preveem encerrar sessões privilegiadas ativas. Para conter abuso feito por máquina, é preciso remover privilégio, revogar tokens, bloquear integrações OAuth suspeitas e encerrar sessões ativas com rapidez. Abaixo, veja um checklist de governança para aplicar aos seus agentes de IA.
Checklist de governança para agentes
- Descubra e registre os agentes em uso em SaaS, nuvem e ambientes de desenvolvimento.
- Dê a cada agente só as ferramentas que a tarefa exige. Um agente que resume e-mails não precisa enviar nem apagar mensagens.
- Restrinja as permissões da conta que o agente usa nos sistemas de destino. Se a tarefa é ler, a conta só lê.
- Execute as ações no contexto do usuário, com o escopo OAuth mínimo.
- Conceda acesso só durante a tarefa e revogue no fim da sessão.
- Exija aprovação humana para ações de alto impacto, como apagar documentos ou publicar conteúdo.
- Registre qual agente executou cada ação e em nome de qual usuário.
- Inclua no plano de resposta a revogação de tokens e chaves de API.
Segurança de identidade no ritmo da tecnologia
Cada novo agente, aplicativo ou processo com IA abre mais um caminho de acesso dentro da empresa, ou seja, a segurança de identidade precisa acompanhar o ritmo das tecnologias que a empresa adota. Na prática, isso significa saber quais identidades existem, dar a cada uma só o acesso que a tarefa exige e conseguir revogar esse acesso com rapidez quando algo sai do padrão.
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